Neste dia das estrelas, cheguei em casa consideravelmente tarde. Mal entrei, fui abordado por Mario.
- Onde estava, Horácio? - perguntou-me secamente.
- Você sabe. Com Ícaro. Eu disse que estava com ele.
- Ah sim, claro. Quero que convide-o para se juntar à nós, alguma noite dessas, em um jantar. Quero recebê-lo.
Percebi logo que não era um simples convite.Mario queria saber mais sobre Enkil, que, para ele, se chamava Ícaro. Estava desconfiado, e, se me permite dizer, com todos os motivos para isso.
- Verei com ele se quer vir - respondi lentamente demais, e admito, de forma suspeita.
- Com certeza ele vai querer.
Essa é minha história. Não importa para mim se irá ou não acreditar nela. Também não me importo com qualquer outra coisa. Peço-lhe, apenas leia.
Vinte e cinco. (Dedicado à Taís)
Eu olhava para o céu, com Enkil ao meu lado. Era noite, não havia nuvens, e a falta de luz artificial fazia com que as estrelas ficassem bem visíveis. De onde eu estava, não conseguia ver a Lua.
- O que vê, Horácio?
Olhei mais atentamente. Não via nada que já não tivesse visto - céu escuro, estrelas brilhantes, constelação. Continuei analisando, procurando pelo algo que provavelmente Enkil queria que eu visse - mas nada. Sabia que iria decepcioná-lo com isso.
- Não vê nada de especial, certo? - ele me perguntou, me dando novamente a impressão de ter acesso aos meus pensamentos, de alguma forma. - Não esperava que visse, por hora. Venha, beba mais um pouco.
Ele se sentou ao meu lado, e me estendeu o pulso, já cortado. Levantei-me um pouco e bebi. Novamente, nenhuma imagem, e sim a mesma sensação de antes - quente e viscoso. Mais rápido que previ, ele afastou o braço de mim.
- Agora analise o céu novamente. Comece olhando exclusivamente para apenas uma estrela, à sua escolha. Entre em seu brilho. Veja como é intensa, e vá indo para sua borda, e vendo a perca desse brilho. Consegue ver isso?
- Sim. É como se fosse um degradê.
- Exatamente. Agora focalize em alguma parte distante de estrelas. Focalize a escuridão, e após isso, vá se aproximando da estrela. O que vê?
- Escuridão sendo clareada aos poucos. Consigo ver vários tons, não é mais simplesmente um plano escuro com pontos de luz. Agora vejo a mudança discreta de tons, o negro se tornando cada vez mais claro, em tons de azul, até se tornar branco.
- E o quê você acha dessa nova visão?
Eu estava abismado demais para responder tal pergunta. Sentia que minha visão sempre fora limitada, e agora uma nova e imensa tabela de cores estivesse à minha disposição. Fiquei cerca de quarenta minutos à observar o céu, com Enkil ao meu lado; e a cada novo detalhe - como a visão de estrelas que, ao invés de brancas, tinham uma luz amarelada ou avermelhada - apontava e exclamava, como uma criança em um parque de diversões a observar algo chamativo. Enkil apenas concordava, e às vezes esboçava um suave riso.
- O que vê, Horácio?
Olhei mais atentamente. Não via nada que já não tivesse visto - céu escuro, estrelas brilhantes, constelação. Continuei analisando, procurando pelo algo que provavelmente Enkil queria que eu visse - mas nada. Sabia que iria decepcioná-lo com isso.
- Não vê nada de especial, certo? - ele me perguntou, me dando novamente a impressão de ter acesso aos meus pensamentos, de alguma forma. - Não esperava que visse, por hora. Venha, beba mais um pouco.
Ele se sentou ao meu lado, e me estendeu o pulso, já cortado. Levantei-me um pouco e bebi. Novamente, nenhuma imagem, e sim a mesma sensação de antes - quente e viscoso. Mais rápido que previ, ele afastou o braço de mim.
- Agora analise o céu novamente. Comece olhando exclusivamente para apenas uma estrela, à sua escolha. Entre em seu brilho. Veja como é intensa, e vá indo para sua borda, e vendo a perca desse brilho. Consegue ver isso?
- Sim. É como se fosse um degradê.
- Exatamente. Agora focalize em alguma parte distante de estrelas. Focalize a escuridão, e após isso, vá se aproximando da estrela. O que vê?
- Escuridão sendo clareada aos poucos. Consigo ver vários tons, não é mais simplesmente um plano escuro com pontos de luz. Agora vejo a mudança discreta de tons, o negro se tornando cada vez mais claro, em tons de azul, até se tornar branco.
- E o quê você acha dessa nova visão?
Eu estava abismado demais para responder tal pergunta. Sentia que minha visão sempre fora limitada, e agora uma nova e imensa tabela de cores estivesse à minha disposição. Fiquei cerca de quarenta minutos à observar o céu, com Enkil ao meu lado; e a cada novo detalhe - como a visão de estrelas que, ao invés de brancas, tinham uma luz amarelada ou avermelhada - apontava e exclamava, como uma criança em um parque de diversões a observar algo chamativo. Enkil apenas concordava, e às vezes esboçava um suave riso.
Vinte e quatro.
- Percebeu algo diferente, após nosso primeiro encontro? - perguntou Enkil.
Estávamos novamente em sua sala, sentados frente à frente. Percebi que ele deixara a caixa com nosso athame estrategicamente sobre a mesa de centro. Fiquei pensando por um instante, antes de responder.
- Meus sentimentos ficaram mais intensos, e meus sentidos também. Podia sentir as emoções, como o ódio, em cada célula do meu corpo, em cada parte do meu ser. E com um pouco de concentração, eu era capaz de ouvir e sentir fisicamente muitas coisas que antes se passavam indiferentes por mim.
- Exatamente, meu rapaz. Meu sangue te aumenta a percepção. Fico feliz que tenha descoberto isso sozinho. Algum motivo especial para ter percebido isso?
- Muitos motivos. Não acho necessário citá-los.
- Certo, como quiser - disse-me ele, com um sorriso indecifrável. - Hoje quero te mostrar uma coisa especial. Algo me diz que irá gostar disso.
Bebemos o sangue como da outra vez. Ele me cortou no mesmo lugar, porém no braço contrário.
A diferença veio quando eu bebi. Primeiramente, me sentia mais seguro, e não tinha medo, nenhum medo. Cortei-lhe ansioso pelo que estava por vir - queria ver mais cenas de como fora sua vida; porém isso não aconteceu. Dessa vez apenas senti algo quente e viscoso descer pela minha garganta, e algo quente, muito quente, tomar conta de mim.
- Agora chega, chega - disse ele, me empurrando de seu braço. Percebi que, como da outra vez, estava inconscientemente grudado ao corte, sugando-lhe o sangue. - Venha comigo, veja isso.
Ele me levou para o cômodo ao lado, na cozinha. Nunca havia estado lá - como a sala, era simples: paredes e piso brancos, armários de alumínio e alguns aparelhos eletrodomésticos. Me segurando pelo braço, me guiou até a porta, que levava para o quintal dos fundos. O chão era de concreto, e não havia nenhuma iluminação. Mais ao fundo, eu podia distinguir a silhueta de uma árvore, e pelo seu cheiro, percebi que se tratava de um limoeiro.
- Quero que se deite no chão, e olhe para o céu, para as estrelas.
Sem pestanejar, fiz o que me mandara. O chão era desconfortável, mas não me importei. Percebi que ele se deitara ao meu lado, também olhando para cima.
- Agora, vou te ensinar a beleza, meu amigo.
Estávamos novamente em sua sala, sentados frente à frente. Percebi que ele deixara a caixa com nosso athame estrategicamente sobre a mesa de centro. Fiquei pensando por um instante, antes de responder.
- Meus sentimentos ficaram mais intensos, e meus sentidos também. Podia sentir as emoções, como o ódio, em cada célula do meu corpo, em cada parte do meu ser. E com um pouco de concentração, eu era capaz de ouvir e sentir fisicamente muitas coisas que antes se passavam indiferentes por mim.
- Exatamente, meu rapaz. Meu sangue te aumenta a percepção. Fico feliz que tenha descoberto isso sozinho. Algum motivo especial para ter percebido isso?
- Muitos motivos. Não acho necessário citá-los.
- Certo, como quiser - disse-me ele, com um sorriso indecifrável. - Hoje quero te mostrar uma coisa especial. Algo me diz que irá gostar disso.
Bebemos o sangue como da outra vez. Ele me cortou no mesmo lugar, porém no braço contrário.
A diferença veio quando eu bebi. Primeiramente, me sentia mais seguro, e não tinha medo, nenhum medo. Cortei-lhe ansioso pelo que estava por vir - queria ver mais cenas de como fora sua vida; porém isso não aconteceu. Dessa vez apenas senti algo quente e viscoso descer pela minha garganta, e algo quente, muito quente, tomar conta de mim.
- Agora chega, chega - disse ele, me empurrando de seu braço. Percebi que, como da outra vez, estava inconscientemente grudado ao corte, sugando-lhe o sangue. - Venha comigo, veja isso.
Ele me levou para o cômodo ao lado, na cozinha. Nunca havia estado lá - como a sala, era simples: paredes e piso brancos, armários de alumínio e alguns aparelhos eletrodomésticos. Me segurando pelo braço, me guiou até a porta, que levava para o quintal dos fundos. O chão era de concreto, e não havia nenhuma iluminação. Mais ao fundo, eu podia distinguir a silhueta de uma árvore, e pelo seu cheiro, percebi que se tratava de um limoeiro.
- Quero que se deite no chão, e olhe para o céu, para as estrelas.
Sem pestanejar, fiz o que me mandara. O chão era desconfortável, mas não me importei. Percebi que ele se deitara ao meu lado, também olhando para cima.
- Agora, vou te ensinar a beleza, meu amigo.
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