Não pensei, por um instante, após Aline ter me deixado, no que acontecera.
Fechei meus olhos, como havia feito antes, e esvaziei minha mente de qualquer coisa que viesse a me distrair. Queria que os sentidos tomassem conta de todo o meu ser. Respirando lenta e profundamente, senti o ar abafado ao meu redor, e a brisa quente que vinha da janela aberta; concentrei-me ao máximo para sentir cada fibra de meu corpo, também - o peito se elevando e abaixando, com a respiração, a sensação das pálpebras sob meus olhos, a maciez da colcha em meu corpo nu, a pulsação dolorida incessante de meu pulso recém cortado. Apurei meus ouvidos para ouvir, ouvir tudo, porém sem prestar atenção especial em nenhum som: ouvia os carros na avenida distante, o cachorro insistente, com um latido rouco e feio, o fogão elétrico sendo acionado, e alguém conversando alegremente na rua, mesmo eu não entendendo as palavras. A vista captava exatamente aquilo que alguém vê quando está de olhos fechados - escuridão, às vezes interrompida por ondas e pulsações de luz fosca. Sentia o cheiro de meu perfume amadeirado, do perfume cítrico de Aline, de lustra-móveis, de roupa limpa e de sexo. Em minha boca, apenas o gosto de saliva.
Posso ter ficado por horas a fio contemplando tais sensações. Não pensei em nada, não lembrei de nada - apenas pensei. Depois de um tempo considerável, adormeci, ainda sem abrir os olhos ou me mover.
Essa é minha história. Não importa para mim se irá ou não acreditar nela. Também não me importo com qualquer outra coisa. Peço-lhe, apenas leia.
Vinte e um.
- O que quer comigo? - voltei a perguntar.
- Eu já te disse, Horácio, quero que me ame! - Aline sentou ao meu lado, tentando me tocar, mas me afastei. - Por favor, pelo menos por hoje.
A vontade de ficar sozinho só crescia em mim.
- Se eu te der o que quer, vai me deixar em paz?
Em situações normais, eu nunca diria isso. Mas não era uma situação normal. Eu sentia meu cérebro pulsando, sentia meu coração e o sangue em minhas veias. Escutava sua respiração como a milímetros de mim, escutava o maldito carro lá fora, e o cachorro que latia, sabe-se lá aonde. Eu precisava pensar.
- Sim - respondeu ela, depois do que pareceu ser uma eternidade.
Aproximei-me dela sem mais delongas, abraçando sua cintura fina e beijando seus lábios ressequidos. Não me sentia disposto a tal, mas se aquilo faria-a me deixar, que assim fosse. Creio não ser preciso entrar em mais detalhes. Para um usar um termo belo, fiz amor com ela. Mesmo que não tivesse nada de amor naquilo.
Como eu esperava que acontecesse, ela me deixou pouco tempo depois, constrangida e provavelmente percebendo que eu não queria que continuasse do meu lado. Antes de bater a porta ao sair, sussurrou um "boa noite", que não respondi.
- Eu já te disse, Horácio, quero que me ame! - Aline sentou ao meu lado, tentando me tocar, mas me afastei. - Por favor, pelo menos por hoje.
A vontade de ficar sozinho só crescia em mim.
- Se eu te der o que quer, vai me deixar em paz?
Em situações normais, eu nunca diria isso. Mas não era uma situação normal. Eu sentia meu cérebro pulsando, sentia meu coração e o sangue em minhas veias. Escutava sua respiração como a milímetros de mim, escutava o maldito carro lá fora, e o cachorro que latia, sabe-se lá aonde. Eu precisava pensar.
- Sim - respondeu ela, depois do que pareceu ser uma eternidade.
Aproximei-me dela sem mais delongas, abraçando sua cintura fina e beijando seus lábios ressequidos. Não me sentia disposto a tal, mas se aquilo faria-a me deixar, que assim fosse. Creio não ser preciso entrar em mais detalhes. Para um usar um termo belo, fiz amor com ela. Mesmo que não tivesse nada de amor naquilo.
Como eu esperava que acontecesse, ela me deixou pouco tempo depois, constrangida e provavelmente percebendo que eu não queria que continuasse do meu lado. Antes de bater a porta ao sair, sussurrou um "boa noite", que não respondi.
Vinte. (Dedicado à Thavi)
Essa primeira "sessão" com Enkil já me fez mudar. Quando cheguei em casa, percebi que estava mais quieto, mais pensativo, e que sentia uma vontade enorme de ficar sozinho. Precisava colocar meus pensamentos em ordem, precisava de silêncio e solidão.
Cumprimentei Mario brevemente, fui ao meu quarto e encostei a porta. Deitei-me na cama, fechei os olhos e relembrei das cenas que vira ao beber o sangue, tentando me lembrar de cada ínfimo detalhe.
Escutei que abriam minha porta. Continuei indiferente. Senti o perfume cítrico - Aline. A intromissão dela passara de "divertida" para "irritante". Me irritava ela entrar no meu quarto sem bater à porta, me irritava ela me olhar com desejo reprimido, me irritava o perfume, o barulho dos passos dela e sua respiração.
Abri os olhos e me deparei com sua mão à poucos centímetros de meu rosto. Ela soltou uma exclamação de susto e pulou para trás.
Uma ira totalmente desconhecida por mim invadiu meu corpo. Levantei-me, sem desgrudar os olhos dela.
- O que quer comigo?
Me agradava ser tão alto quanto ela. Provavelmente isso ajudava-a a esquecer que eu era consideravelmente mais novo que ela.
- Quero que me ame - ela respondeu, com voz falha.
Essas palavras tiveram, para mim, o mesmo efeito que um tapa. E quando lembro disso, quase acredito que até movi o rosto, como se tivesse levado um.
Amor, amor, o simples amor, o que acontecera com ele? Com a maneira fácil de amar, amor por amor, amor por um instante, e nada mais? Sumira. Todos os conceitos, tudo, agora, parecia complicado. Era como conseguir duplicar os sentidos e o intelecto, mas não saber como usar isso.
Sentei-me na cama, com as mãos no rosto, sem perceber tal gesto. Eu precisava dar um fim naquilo, precisava deixá-la longe de mim, precisava pensar, em paz.
Cumprimentei Mario brevemente, fui ao meu quarto e encostei a porta. Deitei-me na cama, fechei os olhos e relembrei das cenas que vira ao beber o sangue, tentando me lembrar de cada ínfimo detalhe.
Escutei que abriam minha porta. Continuei indiferente. Senti o perfume cítrico - Aline. A intromissão dela passara de "divertida" para "irritante". Me irritava ela entrar no meu quarto sem bater à porta, me irritava ela me olhar com desejo reprimido, me irritava o perfume, o barulho dos passos dela e sua respiração.
Abri os olhos e me deparei com sua mão à poucos centímetros de meu rosto. Ela soltou uma exclamação de susto e pulou para trás.
Uma ira totalmente desconhecida por mim invadiu meu corpo. Levantei-me, sem desgrudar os olhos dela.
- O que quer comigo?
Me agradava ser tão alto quanto ela. Provavelmente isso ajudava-a a esquecer que eu era consideravelmente mais novo que ela.
- Quero que me ame - ela respondeu, com voz falha.
Essas palavras tiveram, para mim, o mesmo efeito que um tapa. E quando lembro disso, quase acredito que até movi o rosto, como se tivesse levado um.
Amor, amor, o simples amor, o que acontecera com ele? Com a maneira fácil de amar, amor por amor, amor por um instante, e nada mais? Sumira. Todos os conceitos, tudo, agora, parecia complicado. Era como conseguir duplicar os sentidos e o intelecto, mas não saber como usar isso.
Sentei-me na cama, com as mãos no rosto, sem perceber tal gesto. Eu precisava dar um fim naquilo, precisava deixá-la longe de mim, precisava pensar, em paz.
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