No dia do tal jantar, fiquei muito apreensivo, como não ficava há tempos. Acho que todos já sentiram o que senti. Aquele frio imenso na barriga, misto com uma sensação intensa de correr, gritar, sumir. Estava muito nervoso.
Enkil - que passara a noite sendo Ícaro - chegou alguns minutos antes do combinado; vestia-se socialmente, porém sem muito luxo. Mario recebeu-o seco, coisa muito incomum - normalmente era simpático aos extremos.
- Então você é o famoso Ícaro que anda tomando tanto tempo de meu sobrinho? - disse ele, com um sorriso propositalmente falso.
Tirando algumas indiretas aqui e ali, por parte de meu tio, o jantar ia muito bem, obrigado. Enkil estava sendo muito gentil, sempre com respostas inteligentes, dizendo que nossa amizade se devia ao fato de ambos terem boa sintonia quando o assunto era música e conhecimentos gerais. Eu evitava falar muito - temia dizer algo que acabasse com o jogo todo que Enkil inventava. E, se querem saber, parece que não sentiram falta de minhas palavras.
Já estávamos nos servindo da sobremesa - torta de sorvete de morango com chocolate, realmente boa - quando meu tio, sem mais delongas, deu seu veredito:
- Bom, senhor Ícaro, vejo que não é de fato má pessoa, e que não possui más intenções. Porém, tente entender meu lado. Não é de boa conduta que você e meu sobrinho fiquem se encontrando em sua casa, principalmente tarde da noite. E eu, como guardião de Rafael, tenho total direito de proibi-lo de algumas coisas, sendo que ele ainda não é um homem. Então, lhe peço que, quando desejar falar com meu sobrinho, venha até em casa, onde sempre será bem recebido.
É claro que Enkil não ficou feliz com isso. Porém, só sobrou à ele aceitar. O jantar acabou com um certo quê de desentendimento. E nenhuma manifestação de opinião minha.
Essa é minha história. Não importa para mim se irá ou não acreditar nela. Também não me importo com qualquer outra coisa. Peço-lhe, apenas leia.
Vinte e oito.
Uma semana se passou até que eu tivesse coragem de marcar o jantar que meu tio propusera, e que Enkil parecia tão ansioso por ir. Durante esse tempo, não me atrevi a falar ou me encontrar com Enkil; também dei um tempo para minha mente se acostumar com o turbilhão de idéias que deixavam-me louco.
Percebi que, quando longe do sangue, me tornava mais calmo, paciente e compreensivo - como era antes. E pela primeira vez, me senti culpado por como tratara Aline.
Ela, por sua vez, acho que me ignorava. Exatamente como eu havia pedido. Não pensem que estou relatando isso porque, de uma hora para outra, me apaixonei por ela e queria me desculpar. Não, definitivamente nada disso. Só que, não gostava quando as pessoas não gostavam de mim. Egoísmo de minha parte? Talvez.
Percebi que, quando longe do sangue, me tornava mais calmo, paciente e compreensivo - como era antes. E pela primeira vez, me senti culpado por como tratara Aline.
Ela, por sua vez, acho que me ignorava. Exatamente como eu havia pedido. Não pensem que estou relatando isso porque, de uma hora para outra, me apaixonei por ela e queria me desculpar. Não, definitivamente nada disso. Só que, não gostava quando as pessoas não gostavam de mim. Egoísmo de minha parte? Talvez.
Vinte e sete.
Liguei imediatamente para Enkil, e lhe contei o acontecido. Ao contrário do que eu pensara, ele não se mostrou nervoso e muito menos apreensivo. Pelo contrário, pediu que eu não me preocupasse.
- Como não me preocupar? Sabe, você não é exatamente o que chamamos de "amigo bom exemplo".
- Já lhe disse, meu querido, se acalme. Posso tranquilamente ir a este jantar. Prometeu confiar em mim.
Nada do que ele disse me despreocupou. Porém, vendo que eu já não havia mais argumentos para tentar contradize-lo, desisti. Desliguei o telefone e me sentei na beirada da cama. Olhei para o relógio de pedra que há tanto tempo ganhara de Mario. Pouco mais de três horas da manhã.
Escondi meu rosto em minhas mãos. Afinal, o que raios eu estava fazendo? Passando meu tempo com um homem que me revelava coisas que ninguém nunca ouvira falar. Não era possível que, em um mundo tão moderno, segredos como esse ainda passassem despercebidos por milhares de cientistas e médicos e curiosos. Era loucura demais.
Não me lembro bem como, mas sei que pouco depois dormi, pensando ainda em como tudo aquilo era uma grande confusão. Tive sonhos inquietantes. Neles, estava em uma maca de hospital, sendo constantemente examinado, furado e cortado, com todos os tipos mais estranhos de ferramentas médicas. Pessoas usando roupas brancas me assistiam por detrás de uma grande vitrine. Acordei diversas vezes na noite, assustado sem saber direito com o quê.
- Como não me preocupar? Sabe, você não é exatamente o que chamamos de "amigo bom exemplo".
- Já lhe disse, meu querido, se acalme. Posso tranquilamente ir a este jantar. Prometeu confiar em mim.
Nada do que ele disse me despreocupou. Porém, vendo que eu já não havia mais argumentos para tentar contradize-lo, desisti. Desliguei o telefone e me sentei na beirada da cama. Olhei para o relógio de pedra que há tanto tempo ganhara de Mario. Pouco mais de três horas da manhã.
Escondi meu rosto em minhas mãos. Afinal, o que raios eu estava fazendo? Passando meu tempo com um homem que me revelava coisas que ninguém nunca ouvira falar. Não era possível que, em um mundo tão moderno, segredos como esse ainda passassem despercebidos por milhares de cientistas e médicos e curiosos. Era loucura demais.
Não me lembro bem como, mas sei que pouco depois dormi, pensando ainda em como tudo aquilo era uma grande confusão. Tive sonhos inquietantes. Neles, estava em uma maca de hospital, sendo constantemente examinado, furado e cortado, com todos os tipos mais estranhos de ferramentas médicas. Pessoas usando roupas brancas me assistiam por detrás de uma grande vitrine. Acordei diversas vezes na noite, assustado sem saber direito com o quê.
Vinte e seis.
Neste dia das estrelas, cheguei em casa consideravelmente tarde. Mal entrei, fui abordado por Mario.
- Onde estava, Horácio? - perguntou-me secamente.
- Você sabe. Com Ícaro. Eu disse que estava com ele.
- Ah sim, claro. Quero que convide-o para se juntar à nós, alguma noite dessas, em um jantar. Quero recebê-lo.
Percebi logo que não era um simples convite.Mario queria saber mais sobre Enkil, que, para ele, se chamava Ícaro. Estava desconfiado, e, se me permite dizer, com todos os motivos para isso.
- Verei com ele se quer vir - respondi lentamente demais, e admito, de forma suspeita.
- Com certeza ele vai querer.
- Onde estava, Horácio? - perguntou-me secamente.
- Você sabe. Com Ícaro. Eu disse que estava com ele.
- Ah sim, claro. Quero que convide-o para se juntar à nós, alguma noite dessas, em um jantar. Quero recebê-lo.
Percebi logo que não era um simples convite.Mario queria saber mais sobre Enkil, que, para ele, se chamava Ícaro. Estava desconfiado, e, se me permite dizer, com todos os motivos para isso.
- Verei com ele se quer vir - respondi lentamente demais, e admito, de forma suspeita.
- Com certeza ele vai querer.
Vinte e cinco. (Dedicado à Taís)
Eu olhava para o céu, com Enkil ao meu lado. Era noite, não havia nuvens, e a falta de luz artificial fazia com que as estrelas ficassem bem visíveis. De onde eu estava, não conseguia ver a Lua.
- O que vê, Horácio?
Olhei mais atentamente. Não via nada que já não tivesse visto - céu escuro, estrelas brilhantes, constelação. Continuei analisando, procurando pelo algo que provavelmente Enkil queria que eu visse - mas nada. Sabia que iria decepcioná-lo com isso.
- Não vê nada de especial, certo? - ele me perguntou, me dando novamente a impressão de ter acesso aos meus pensamentos, de alguma forma. - Não esperava que visse, por hora. Venha, beba mais um pouco.
Ele se sentou ao meu lado, e me estendeu o pulso, já cortado. Levantei-me um pouco e bebi. Novamente, nenhuma imagem, e sim a mesma sensação de antes - quente e viscoso. Mais rápido que previ, ele afastou o braço de mim.
- Agora analise o céu novamente. Comece olhando exclusivamente para apenas uma estrela, à sua escolha. Entre em seu brilho. Veja como é intensa, e vá indo para sua borda, e vendo a perca desse brilho. Consegue ver isso?
- Sim. É como se fosse um degradê.
- Exatamente. Agora focalize em alguma parte distante de estrelas. Focalize a escuridão, e após isso, vá se aproximando da estrela. O que vê?
- Escuridão sendo clareada aos poucos. Consigo ver vários tons, não é mais simplesmente um plano escuro com pontos de luz. Agora vejo a mudança discreta de tons, o negro se tornando cada vez mais claro, em tons de azul, até se tornar branco.
- E o quê você acha dessa nova visão?
Eu estava abismado demais para responder tal pergunta. Sentia que minha visão sempre fora limitada, e agora uma nova e imensa tabela de cores estivesse à minha disposição. Fiquei cerca de quarenta minutos à observar o céu, com Enkil ao meu lado; e a cada novo detalhe - como a visão de estrelas que, ao invés de brancas, tinham uma luz amarelada ou avermelhada - apontava e exclamava, como uma criança em um parque de diversões a observar algo chamativo. Enkil apenas concordava, e às vezes esboçava um suave riso.
- O que vê, Horácio?
Olhei mais atentamente. Não via nada que já não tivesse visto - céu escuro, estrelas brilhantes, constelação. Continuei analisando, procurando pelo algo que provavelmente Enkil queria que eu visse - mas nada. Sabia que iria decepcioná-lo com isso.
- Não vê nada de especial, certo? - ele me perguntou, me dando novamente a impressão de ter acesso aos meus pensamentos, de alguma forma. - Não esperava que visse, por hora. Venha, beba mais um pouco.
Ele se sentou ao meu lado, e me estendeu o pulso, já cortado. Levantei-me um pouco e bebi. Novamente, nenhuma imagem, e sim a mesma sensação de antes - quente e viscoso. Mais rápido que previ, ele afastou o braço de mim.
- Agora analise o céu novamente. Comece olhando exclusivamente para apenas uma estrela, à sua escolha. Entre em seu brilho. Veja como é intensa, e vá indo para sua borda, e vendo a perca desse brilho. Consegue ver isso?
- Sim. É como se fosse um degradê.
- Exatamente. Agora focalize em alguma parte distante de estrelas. Focalize a escuridão, e após isso, vá se aproximando da estrela. O que vê?
- Escuridão sendo clareada aos poucos. Consigo ver vários tons, não é mais simplesmente um plano escuro com pontos de luz. Agora vejo a mudança discreta de tons, o negro se tornando cada vez mais claro, em tons de azul, até se tornar branco.
- E o quê você acha dessa nova visão?
Eu estava abismado demais para responder tal pergunta. Sentia que minha visão sempre fora limitada, e agora uma nova e imensa tabela de cores estivesse à minha disposição. Fiquei cerca de quarenta minutos à observar o céu, com Enkil ao meu lado; e a cada novo detalhe - como a visão de estrelas que, ao invés de brancas, tinham uma luz amarelada ou avermelhada - apontava e exclamava, como uma criança em um parque de diversões a observar algo chamativo. Enkil apenas concordava, e às vezes esboçava um suave riso.
Vinte e quatro.
- Percebeu algo diferente, após nosso primeiro encontro? - perguntou Enkil.
Estávamos novamente em sua sala, sentados frente à frente. Percebi que ele deixara a caixa com nosso athame estrategicamente sobre a mesa de centro. Fiquei pensando por um instante, antes de responder.
- Meus sentimentos ficaram mais intensos, e meus sentidos também. Podia sentir as emoções, como o ódio, em cada célula do meu corpo, em cada parte do meu ser. E com um pouco de concentração, eu era capaz de ouvir e sentir fisicamente muitas coisas que antes se passavam indiferentes por mim.
- Exatamente, meu rapaz. Meu sangue te aumenta a percepção. Fico feliz que tenha descoberto isso sozinho. Algum motivo especial para ter percebido isso?
- Muitos motivos. Não acho necessário citá-los.
- Certo, como quiser - disse-me ele, com um sorriso indecifrável. - Hoje quero te mostrar uma coisa especial. Algo me diz que irá gostar disso.
Bebemos o sangue como da outra vez. Ele me cortou no mesmo lugar, porém no braço contrário.
A diferença veio quando eu bebi. Primeiramente, me sentia mais seguro, e não tinha medo, nenhum medo. Cortei-lhe ansioso pelo que estava por vir - queria ver mais cenas de como fora sua vida; porém isso não aconteceu. Dessa vez apenas senti algo quente e viscoso descer pela minha garganta, e algo quente, muito quente, tomar conta de mim.
- Agora chega, chega - disse ele, me empurrando de seu braço. Percebi que, como da outra vez, estava inconscientemente grudado ao corte, sugando-lhe o sangue. - Venha comigo, veja isso.
Ele me levou para o cômodo ao lado, na cozinha. Nunca havia estado lá - como a sala, era simples: paredes e piso brancos, armários de alumínio e alguns aparelhos eletrodomésticos. Me segurando pelo braço, me guiou até a porta, que levava para o quintal dos fundos. O chão era de concreto, e não havia nenhuma iluminação. Mais ao fundo, eu podia distinguir a silhueta de uma árvore, e pelo seu cheiro, percebi que se tratava de um limoeiro.
- Quero que se deite no chão, e olhe para o céu, para as estrelas.
Sem pestanejar, fiz o que me mandara. O chão era desconfortável, mas não me importei. Percebi que ele se deitara ao meu lado, também olhando para cima.
- Agora, vou te ensinar a beleza, meu amigo.
Estávamos novamente em sua sala, sentados frente à frente. Percebi que ele deixara a caixa com nosso athame estrategicamente sobre a mesa de centro. Fiquei pensando por um instante, antes de responder.
- Meus sentimentos ficaram mais intensos, e meus sentidos também. Podia sentir as emoções, como o ódio, em cada célula do meu corpo, em cada parte do meu ser. E com um pouco de concentração, eu era capaz de ouvir e sentir fisicamente muitas coisas que antes se passavam indiferentes por mim.
- Exatamente, meu rapaz. Meu sangue te aumenta a percepção. Fico feliz que tenha descoberto isso sozinho. Algum motivo especial para ter percebido isso?
- Muitos motivos. Não acho necessário citá-los.
- Certo, como quiser - disse-me ele, com um sorriso indecifrável. - Hoje quero te mostrar uma coisa especial. Algo me diz que irá gostar disso.
Bebemos o sangue como da outra vez. Ele me cortou no mesmo lugar, porém no braço contrário.
A diferença veio quando eu bebi. Primeiramente, me sentia mais seguro, e não tinha medo, nenhum medo. Cortei-lhe ansioso pelo que estava por vir - queria ver mais cenas de como fora sua vida; porém isso não aconteceu. Dessa vez apenas senti algo quente e viscoso descer pela minha garganta, e algo quente, muito quente, tomar conta de mim.
- Agora chega, chega - disse ele, me empurrando de seu braço. Percebi que, como da outra vez, estava inconscientemente grudado ao corte, sugando-lhe o sangue. - Venha comigo, veja isso.
Ele me levou para o cômodo ao lado, na cozinha. Nunca havia estado lá - como a sala, era simples: paredes e piso brancos, armários de alumínio e alguns aparelhos eletrodomésticos. Me segurando pelo braço, me guiou até a porta, que levava para o quintal dos fundos. O chão era de concreto, e não havia nenhuma iluminação. Mais ao fundo, eu podia distinguir a silhueta de uma árvore, e pelo seu cheiro, percebi que se tratava de um limoeiro.
- Quero que se deite no chão, e olhe para o céu, para as estrelas.
Sem pestanejar, fiz o que me mandara. O chão era desconfortável, mas não me importei. Percebi que ele se deitara ao meu lado, também olhando para cima.
- Agora, vou te ensinar a beleza, meu amigo.
Vinte e três.
Pouco vi Aline no dia seguinte, ou no seguinte, ou no seguinte. Ela parecia me evitar sempre que possível, e eu sinceramente não me importava com tal.
As mudanças em mim agora eram bem mais amenas que na noite em que bebi o sangue pela primeira vez; até mesmo pensei menos no assunto do quê acreditei que pensaria. Admito, me tornei mais antissocial - mas apenas isso, no começo. Ansiava pelo próximo encontro com Enkil.
As mudanças em mim agora eram bem mais amenas que na noite em que bebi o sangue pela primeira vez; até mesmo pensei menos no assunto do quê acreditei que pensaria. Admito, me tornei mais antissocial - mas apenas isso, no começo. Ansiava pelo próximo encontro com Enkil.
Vinte e dois.
Não pensei, por um instante, após Aline ter me deixado, no que acontecera.
Fechei meus olhos, como havia feito antes, e esvaziei minha mente de qualquer coisa que viesse a me distrair. Queria que os sentidos tomassem conta de todo o meu ser. Respirando lenta e profundamente, senti o ar abafado ao meu redor, e a brisa quente que vinha da janela aberta; concentrei-me ao máximo para sentir cada fibra de meu corpo, também - o peito se elevando e abaixando, com a respiração, a sensação das pálpebras sob meus olhos, a maciez da colcha em meu corpo nu, a pulsação dolorida incessante de meu pulso recém cortado. Apurei meus ouvidos para ouvir, ouvir tudo, porém sem prestar atenção especial em nenhum som: ouvia os carros na avenida distante, o cachorro insistente, com um latido rouco e feio, o fogão elétrico sendo acionado, e alguém conversando alegremente na rua, mesmo eu não entendendo as palavras. A vista captava exatamente aquilo que alguém vê quando está de olhos fechados - escuridão, às vezes interrompida por ondas e pulsações de luz fosca. Sentia o cheiro de meu perfume amadeirado, do perfume cítrico de Aline, de lustra-móveis, de roupa limpa e de sexo. Em minha boca, apenas o gosto de saliva.
Posso ter ficado por horas a fio contemplando tais sensações. Não pensei em nada, não lembrei de nada - apenas pensei. Depois de um tempo considerável, adormeci, ainda sem abrir os olhos ou me mover.
Fechei meus olhos, como havia feito antes, e esvaziei minha mente de qualquer coisa que viesse a me distrair. Queria que os sentidos tomassem conta de todo o meu ser. Respirando lenta e profundamente, senti o ar abafado ao meu redor, e a brisa quente que vinha da janela aberta; concentrei-me ao máximo para sentir cada fibra de meu corpo, também - o peito se elevando e abaixando, com a respiração, a sensação das pálpebras sob meus olhos, a maciez da colcha em meu corpo nu, a pulsação dolorida incessante de meu pulso recém cortado. Apurei meus ouvidos para ouvir, ouvir tudo, porém sem prestar atenção especial em nenhum som: ouvia os carros na avenida distante, o cachorro insistente, com um latido rouco e feio, o fogão elétrico sendo acionado, e alguém conversando alegremente na rua, mesmo eu não entendendo as palavras. A vista captava exatamente aquilo que alguém vê quando está de olhos fechados - escuridão, às vezes interrompida por ondas e pulsações de luz fosca. Sentia o cheiro de meu perfume amadeirado, do perfume cítrico de Aline, de lustra-móveis, de roupa limpa e de sexo. Em minha boca, apenas o gosto de saliva.
Posso ter ficado por horas a fio contemplando tais sensações. Não pensei em nada, não lembrei de nada - apenas pensei. Depois de um tempo considerável, adormeci, ainda sem abrir os olhos ou me mover.
Vinte e um.
- O que quer comigo? - voltei a perguntar.
- Eu já te disse, Horácio, quero que me ame! - Aline sentou ao meu lado, tentando me tocar, mas me afastei. - Por favor, pelo menos por hoje.
A vontade de ficar sozinho só crescia em mim.
- Se eu te der o que quer, vai me deixar em paz?
Em situações normais, eu nunca diria isso. Mas não era uma situação normal. Eu sentia meu cérebro pulsando, sentia meu coração e o sangue em minhas veias. Escutava sua respiração como a milímetros de mim, escutava o maldito carro lá fora, e o cachorro que latia, sabe-se lá aonde. Eu precisava pensar.
- Sim - respondeu ela, depois do que pareceu ser uma eternidade.
Aproximei-me dela sem mais delongas, abraçando sua cintura fina e beijando seus lábios ressequidos. Não me sentia disposto a tal, mas se aquilo faria-a me deixar, que assim fosse. Creio não ser preciso entrar em mais detalhes. Para um usar um termo belo, fiz amor com ela. Mesmo que não tivesse nada de amor naquilo.
Como eu esperava que acontecesse, ela me deixou pouco tempo depois, constrangida e provavelmente percebendo que eu não queria que continuasse do meu lado. Antes de bater a porta ao sair, sussurrou um "boa noite", que não respondi.
- Eu já te disse, Horácio, quero que me ame! - Aline sentou ao meu lado, tentando me tocar, mas me afastei. - Por favor, pelo menos por hoje.
A vontade de ficar sozinho só crescia em mim.
- Se eu te der o que quer, vai me deixar em paz?
Em situações normais, eu nunca diria isso. Mas não era uma situação normal. Eu sentia meu cérebro pulsando, sentia meu coração e o sangue em minhas veias. Escutava sua respiração como a milímetros de mim, escutava o maldito carro lá fora, e o cachorro que latia, sabe-se lá aonde. Eu precisava pensar.
- Sim - respondeu ela, depois do que pareceu ser uma eternidade.
Aproximei-me dela sem mais delongas, abraçando sua cintura fina e beijando seus lábios ressequidos. Não me sentia disposto a tal, mas se aquilo faria-a me deixar, que assim fosse. Creio não ser preciso entrar em mais detalhes. Para um usar um termo belo, fiz amor com ela. Mesmo que não tivesse nada de amor naquilo.
Como eu esperava que acontecesse, ela me deixou pouco tempo depois, constrangida e provavelmente percebendo que eu não queria que continuasse do meu lado. Antes de bater a porta ao sair, sussurrou um "boa noite", que não respondi.
Vinte. (Dedicado à Thavi)
Essa primeira "sessão" com Enkil já me fez mudar. Quando cheguei em casa, percebi que estava mais quieto, mais pensativo, e que sentia uma vontade enorme de ficar sozinho. Precisava colocar meus pensamentos em ordem, precisava de silêncio e solidão.
Cumprimentei Mario brevemente, fui ao meu quarto e encostei a porta. Deitei-me na cama, fechei os olhos e relembrei das cenas que vira ao beber o sangue, tentando me lembrar de cada ínfimo detalhe.
Escutei que abriam minha porta. Continuei indiferente. Senti o perfume cítrico - Aline. A intromissão dela passara de "divertida" para "irritante". Me irritava ela entrar no meu quarto sem bater à porta, me irritava ela me olhar com desejo reprimido, me irritava o perfume, o barulho dos passos dela e sua respiração.
Abri os olhos e me deparei com sua mão à poucos centímetros de meu rosto. Ela soltou uma exclamação de susto e pulou para trás.
Uma ira totalmente desconhecida por mim invadiu meu corpo. Levantei-me, sem desgrudar os olhos dela.
- O que quer comigo?
Me agradava ser tão alto quanto ela. Provavelmente isso ajudava-a a esquecer que eu era consideravelmente mais novo que ela.
- Quero que me ame - ela respondeu, com voz falha.
Essas palavras tiveram, para mim, o mesmo efeito que um tapa. E quando lembro disso, quase acredito que até movi o rosto, como se tivesse levado um.
Amor, amor, o simples amor, o que acontecera com ele? Com a maneira fácil de amar, amor por amor, amor por um instante, e nada mais? Sumira. Todos os conceitos, tudo, agora, parecia complicado. Era como conseguir duplicar os sentidos e o intelecto, mas não saber como usar isso.
Sentei-me na cama, com as mãos no rosto, sem perceber tal gesto. Eu precisava dar um fim naquilo, precisava deixá-la longe de mim, precisava pensar, em paz.
Cumprimentei Mario brevemente, fui ao meu quarto e encostei a porta. Deitei-me na cama, fechei os olhos e relembrei das cenas que vira ao beber o sangue, tentando me lembrar de cada ínfimo detalhe.
Escutei que abriam minha porta. Continuei indiferente. Senti o perfume cítrico - Aline. A intromissão dela passara de "divertida" para "irritante". Me irritava ela entrar no meu quarto sem bater à porta, me irritava ela me olhar com desejo reprimido, me irritava o perfume, o barulho dos passos dela e sua respiração.
Abri os olhos e me deparei com sua mão à poucos centímetros de meu rosto. Ela soltou uma exclamação de susto e pulou para trás.
Uma ira totalmente desconhecida por mim invadiu meu corpo. Levantei-me, sem desgrudar os olhos dela.
- O que quer comigo?
Me agradava ser tão alto quanto ela. Provavelmente isso ajudava-a a esquecer que eu era consideravelmente mais novo que ela.
- Quero que me ame - ela respondeu, com voz falha.
Essas palavras tiveram, para mim, o mesmo efeito que um tapa. E quando lembro disso, quase acredito que até movi o rosto, como se tivesse levado um.
Amor, amor, o simples amor, o que acontecera com ele? Com a maneira fácil de amar, amor por amor, amor por um instante, e nada mais? Sumira. Todos os conceitos, tudo, agora, parecia complicado. Era como conseguir duplicar os sentidos e o intelecto, mas não saber como usar isso.
Sentei-me na cama, com as mãos no rosto, sem perceber tal gesto. Eu precisava dar um fim naquilo, precisava deixá-la longe de mim, precisava pensar, em paz.
Dezenove. (Dedicado à Ana Paula)
"Alguma vez, seu coração, espírito ou pensamento estiveram concentrados em uma só coisa que o impedisse de ter qualquer outra preocupação? Você se sentia fermentar e ferver, e o sangue, em ebulição, palpitava nas veias, realçando a cor da face. Seu olhar estranho parecia querer apreender no espaço vazio formas invisíveis a todos os outros olhos e suas palavras se extinguiam em suspiros inquietantes. E seus amigos perguntavam:
- O que aconteceu, meu caro? O que que você tem?
E você se esforçava para descrever sua visão interior e seu colorido quente e suas sombras e luzes, tentando entrar no assunto. Mas tinha a impressão de que seria necessário mostrar, logo, com suas primeiras palavras, tudo o que você carregava de estranho, magnífico, horrível, alegre, aterrorizante, para ferir instantaneamente os ouvintes como se fosse uma descarga elétrica. Entretanto, todas as expressões, tudo que exprime em palavras, parecia incolor, glacial e morto para você.
Tentava procurar, balbuciar, pedindo palavras. Mas as tolas perguntas de meus amigos, como ventos gelados, abaixavam seu fogo interior, até apagá-lo. Porém, se anteriormente, como um pintor audacioso, você tivesse esboçado com grandes traços atrevidos os contornos da sua visão interior, seria fácil, então, ir acrescentando cores cada vez mais quentes, e a multidão de formas diversas entusiasmaria seus amigos, que se veriam, como você mesmo, retratados no quadro que jorrou de seu coração."
- O Homem de Areia, E. T. A. Hoffmann
- O que aconteceu, meu caro? O que que você tem?
E você se esforçava para descrever sua visão interior e seu colorido quente e suas sombras e luzes, tentando entrar no assunto. Mas tinha a impressão de que seria necessário mostrar, logo, com suas primeiras palavras, tudo o que você carregava de estranho, magnífico, horrível, alegre, aterrorizante, para ferir instantaneamente os ouvintes como se fosse uma descarga elétrica. Entretanto, todas as expressões, tudo que exprime em palavras, parecia incolor, glacial e morto para você.
Tentava procurar, balbuciar, pedindo palavras. Mas as tolas perguntas de meus amigos, como ventos gelados, abaixavam seu fogo interior, até apagá-lo. Porém, se anteriormente, como um pintor audacioso, você tivesse esboçado com grandes traços atrevidos os contornos da sua visão interior, seria fácil, então, ir acrescentando cores cada vez mais quentes, e a multidão de formas diversas entusiasmaria seus amigos, que se veriam, como você mesmo, retratados no quadro que jorrou de seu coração."
- O Homem de Areia, E. T. A. Hoffmann
Dezoito. (Dedicado à Camille)
Enkil segurou meu braço com firmeza, sem dizer palavra alguma. Eu sentia medo, porém não resisti. Ele pegou o athame, e com precisão fez um furo em meu pulso. Não reclamei. Ele sorriu, olhando para o sangue fluir, e aproximou seus lábios do corte. Bebeu.
Mais uma vez, aquela sensação tão complexa, tão sublime. Eu escutava o sangue passeando pelas minhas veias, e escutava meu coração descompassado. Mas dessa vez, ouve outra coisa também. Cenas e mais cenas se passavam pela minha mente. A primeira vez que vi as fotos de meus pais, o canário de Mario, minha tia Luisa dizendo que eu não tivera infância, a garota dizendo que eu era insensível, o vaso chinês quebrado, muitos apertos de mãos, beijos, choros. Tudo se passava pela minha cabeça, rápido, em turbilhões. Então parou.
Percebi que Enkil se afastara de mim. Não saberia calcular quando tempo durou. Minutos, provavelmente. Estava arquejante, e um filete de sangue escorria-lhe da boca. Olhou para meu rosto, se recompondo, e disse:
- Agora é sua vez.
Me entregou o athame, que peguei com insegurança. Queria protestar, mas ele já havia me estendido o braço.
- Quero que você corte aqui, acima do cotovelo - me indicou um ponto no antebraço, em que uma veia particularmente visível se encontrava. - Fure aqui com a ponta do athame, certo? Depois puxe um pouco, para ficar um furo de tamanho considerável. Não precisa ter medo, se estiver me machucando além do necessário, te avisarei. Agora faça.
Minha mão tremia. Respirei fundo, para recuperar o controle. E cortei, como ele havia me dito para fazer. O sangue jorrou rápido.
- Isso, meu anjo, agora sabe o que fazer.
Eu não sabia. O sangue escorria pelo braço dele, e ao mesmo tempo que eu sentia uma repulsa enorme, eu era atraído por aquilo. "Deixe de ser medroso, experimente", algo dizia em minha mente. E assim o fiz.
A sensação era tão boa quanto a outra, porém, de uma forma contrária. A sensação que a outra provocava era de submissão, enquanto essa era de poder. Eu senti o gosto metálico do sangue, porém pouco percebi-o. Um barulho semelhante à muitos sussurros invadia meus ouvidos. E então uma cena me veio na mente; era como se eu estivesse me recordando de uma lembrança minha, porém não era minha, não tinha como ser.
Na cena, uma mulher me banhava, apressada. Eu devia ser uma criança. O lugar era feio, um banheiro de piso e azulejos brancos, encardidos. O água que caía sobre meu corpo era fria. Ela conversava apressada comigo - eu não conhecia a língua que ela falava, porém entendia perfeitamente.
- Não deve, nunca, contar a alguém sobre isso, certo, meu filho? Se contar, não poderei mais lhe dar de beber. Se contar, serei expulsa.
- Eu já sei disso, já me disse isso - eu respondi, naquela mesma língua, e com uma voz que não era e nunca fora minha.
A cena mudou. Agora eu estava em um quarto, com chão de madeira e paredes brancas, sentado em uma cama de ferro muito simples, com um colchão fino e desconfortável. O sol da manhã entrava pela janela, e eu ouvia crianças brincando do lado de fora. Ao meu lado, outra cama, idêntica à minha. Um garoto maior que eu estava nela, com a boca grudada no braço da mulher que me banhara. Eu sabia o que ele estava fazendo.
A cena se dissipou e fui trazido com violência de volta à mim. Eu respirava rapidamente. Enkil se encontrava à minha frente. Segurou meu braço e, com um algodão, limpava o sangue de onde ele havia cortado anteriormente.
- Segure isso aqui - disse ele. - Faça parar de sangrar.
Segurei o algodão com força em meu pulso cortado. Ele fazia o mesmo com seu braço.
- Aquela era a mulher do orfanato? - perguntei, com a voz falha.
- Sim. Pensei que gostaria de ver isso.
Mais uma vez, aquela sensação tão complexa, tão sublime. Eu escutava o sangue passeando pelas minhas veias, e escutava meu coração descompassado. Mas dessa vez, ouve outra coisa também. Cenas e mais cenas se passavam pela minha mente. A primeira vez que vi as fotos de meus pais, o canário de Mario, minha tia Luisa dizendo que eu não tivera infância, a garota dizendo que eu era insensível, o vaso chinês quebrado, muitos apertos de mãos, beijos, choros. Tudo se passava pela minha cabeça, rápido, em turbilhões. Então parou.
Percebi que Enkil se afastara de mim. Não saberia calcular quando tempo durou. Minutos, provavelmente. Estava arquejante, e um filete de sangue escorria-lhe da boca. Olhou para meu rosto, se recompondo, e disse:
- Agora é sua vez.
Me entregou o athame, que peguei com insegurança. Queria protestar, mas ele já havia me estendido o braço.
- Quero que você corte aqui, acima do cotovelo - me indicou um ponto no antebraço, em que uma veia particularmente visível se encontrava. - Fure aqui com a ponta do athame, certo? Depois puxe um pouco, para ficar um furo de tamanho considerável. Não precisa ter medo, se estiver me machucando além do necessário, te avisarei. Agora faça.
Minha mão tremia. Respirei fundo, para recuperar o controle. E cortei, como ele havia me dito para fazer. O sangue jorrou rápido.
- Isso, meu anjo, agora sabe o que fazer.
Eu não sabia. O sangue escorria pelo braço dele, e ao mesmo tempo que eu sentia uma repulsa enorme, eu era atraído por aquilo. "Deixe de ser medroso, experimente", algo dizia em minha mente. E assim o fiz.
A sensação era tão boa quanto a outra, porém, de uma forma contrária. A sensação que a outra provocava era de submissão, enquanto essa era de poder. Eu senti o gosto metálico do sangue, porém pouco percebi-o. Um barulho semelhante à muitos sussurros invadia meus ouvidos. E então uma cena me veio na mente; era como se eu estivesse me recordando de uma lembrança minha, porém não era minha, não tinha como ser.
Na cena, uma mulher me banhava, apressada. Eu devia ser uma criança. O lugar era feio, um banheiro de piso e azulejos brancos, encardidos. O água que caía sobre meu corpo era fria. Ela conversava apressada comigo - eu não conhecia a língua que ela falava, porém entendia perfeitamente.
- Não deve, nunca, contar a alguém sobre isso, certo, meu filho? Se contar, não poderei mais lhe dar de beber. Se contar, serei expulsa.
- Eu já sei disso, já me disse isso - eu respondi, naquela mesma língua, e com uma voz que não era e nunca fora minha.
A cena mudou. Agora eu estava em um quarto, com chão de madeira e paredes brancas, sentado em uma cama de ferro muito simples, com um colchão fino e desconfortável. O sol da manhã entrava pela janela, e eu ouvia crianças brincando do lado de fora. Ao meu lado, outra cama, idêntica à minha. Um garoto maior que eu estava nela, com a boca grudada no braço da mulher que me banhara. Eu sabia o que ele estava fazendo.
A cena se dissipou e fui trazido com violência de volta à mim. Eu respirava rapidamente. Enkil se encontrava à minha frente. Segurou meu braço e, com um algodão, limpava o sangue de onde ele havia cortado anteriormente.
- Segure isso aqui - disse ele. - Faça parar de sangrar.
Segurei o algodão com força em meu pulso cortado. Ele fazia o mesmo com seu braço.
- Aquela era a mulher do orfanato? - perguntei, com a voz falha.
- Sim. Pensei que gostaria de ver isso.
Dezessete. (Dedicado à Paula Cristhie)
Enkil saiu da sala, sem nada dizer, seguindo de novo para o corredor. Voltou após alguns instantes, carregando uma pequena caixa de veludo negro. Depositou-a na mesinha central, e a abriu, revelando um pequeno athame, prateado, com o punho revestido de pedras verdes. Mas esse, ao contrário dos normalmente usados na Wicca, possuía os dois gumes afiados. Tive medo.
- Esse vai ser nosso instrumento - explicou ele. - Para cada novo pupilo, um novo athame. Gosta dele?
Fiz que sim com a cabeça.
- Pois bem. Então usaremos ele. Antes de começar, gostaria de dizer que tenho todos os tipos de exames, recentes, logo ali, caso queira vê-los. Não tenho doenças.
- E como sabe que eu não tenho nenhum tipo de doença? - perguntei.
- Eu saberia se tivesse - e deu um de seus sorrisos misteriosos. Não quis saber o que aquilo significava, exatamente. Fiz sinal para que prosseguisse. - Você terá que passar por uma iniciação. Não é complicado. Não terá que fazer nada, a não ser confiar em mim. Certo?
- Como vai ser isso? - admito, eu estava com medo. E quem não estaria?
- Eu vou te perfurar, ainda não sei exatamente onde, para alcançar alguma veia digna de tal. Eu poderia te cortar, mas isso é desnecessário, causaria mais dor, demoraria mais a cicatrizar e poderia deixar marcas. E vou beber a quantidade necessária. A sensação, para você, vai ser praticamente a mesma que a anterior, com a diferença que agora já sabe como é. E, depois, você irá beber do meu. Perguntas?
- E se eu não gostar de beber?
Ele deu uma rápida gargalhada, sem alegria.
- Acredite, você irá gostar.
Indiquei novamente com a cabeça de que tinha entendido. Ele parecia pensar.
- Onde acha que a dor será mais suportável para você? - perguntou.
Dei de ombros. Não fazia ideia de que lugar doeria menos.
- Gosto da sua forma de mostrar interesse agindo desinteressadamente. Enfim, eu aconselharia o pulso. A pele é fina, o que faz com que doa menos. Pode ser?
Fiz que sim.
Ele retirou o athame com cuidado da caixa, e fez um pequeno corte em sua mão, como que para testá-lo. Era realmente muito afiado. Olhou para mim, como quem espera. Dei-lhe o braço, sem nada dizer.
- Esse vai ser nosso instrumento - explicou ele. - Para cada novo pupilo, um novo athame. Gosta dele?
Fiz que sim com a cabeça.
- Pois bem. Então usaremos ele. Antes de começar, gostaria de dizer que tenho todos os tipos de exames, recentes, logo ali, caso queira vê-los. Não tenho doenças.
- E como sabe que eu não tenho nenhum tipo de doença? - perguntei.
- Eu saberia se tivesse - e deu um de seus sorrisos misteriosos. Não quis saber o que aquilo significava, exatamente. Fiz sinal para que prosseguisse. - Você terá que passar por uma iniciação. Não é complicado. Não terá que fazer nada, a não ser confiar em mim. Certo?
- Como vai ser isso? - admito, eu estava com medo. E quem não estaria?
- Eu vou te perfurar, ainda não sei exatamente onde, para alcançar alguma veia digna de tal. Eu poderia te cortar, mas isso é desnecessário, causaria mais dor, demoraria mais a cicatrizar e poderia deixar marcas. E vou beber a quantidade necessária. A sensação, para você, vai ser praticamente a mesma que a anterior, com a diferença que agora já sabe como é. E, depois, você irá beber do meu. Perguntas?
- E se eu não gostar de beber?
Ele deu uma rápida gargalhada, sem alegria.
- Acredite, você irá gostar.
Indiquei novamente com a cabeça de que tinha entendido. Ele parecia pensar.
- Onde acha que a dor será mais suportável para você? - perguntou.
Dei de ombros. Não fazia ideia de que lugar doeria menos.
- Gosto da sua forma de mostrar interesse agindo desinteressadamente. Enfim, eu aconselharia o pulso. A pele é fina, o que faz com que doa menos. Pode ser?
Fiz que sim.
Ele retirou o athame com cuidado da caixa, e fez um pequeno corte em sua mão, como que para testá-lo. Era realmente muito afiado. Olhou para mim, como quem espera. Dei-lhe o braço, sem nada dizer.
Dezesseis (Dedicado à Shabele)
- A única religião que chegou perto de todo esse conhecimento foi o xamanismo - recomeçou Enkil. - Somente o xamanismo entende que o sangue tem poder e um grande número de mistérios. Para citar algum trecho anônimo que ouvi em muito tempo de pesquisa, temos: "o sangue é a vida do homem, a primeira encarnação do fluido universal, a luz vital materializada". Muitos outros povos mais primitivos acreditavam que sangue era algo poderoso, do contrário, o que explicaria os sacrifícios sangrentos que todos um dia já ouvimos falar? Mas a mulher do orfanato nos explicou uma coisa. Hoje, podemos conseguir essa energia que encontramos no sangue através do amor, da alma, através daquilo que espero ter de você.
- O sangue, como muitos pensam, não carrega somente o oxigênio de que nossas células necessitam. Ele contém todos os registros da vida da pessoa, todas as imagens, desejos, lembranças, sentimentos, e, se você souber filtrá-lo o suficiente, até mesmo o conhecimento.
- Então, no nosso primeiro encontro, teve acesso à todas essas informações minhas? - perguntei.
- Não. Eu poderia, se quisesse, mas não; eu estava concentrado em algumas coisas, apenas. As coisas necessárias para eu saber se poderia voltar a te encontrar.
- E o que exatamente quer me ensinar?
- A saber obter e aproveitar o sangue, e também a dar seu sangue sem deixar que tirem todo tipo de informação de você. E quero te mostrar como o sangue, o meu sangue, pode te fazer ver as coisas de um modo diferente, ver a verdadeira beleza. Ver a beleza nas coisas que antes sentia repulsa.
Eu ainda estava repleto de perguntas, algumas essenciais, outras aparentemente tolas. Mas não queria fazê-las. Minha mente estava tão cheia de novas informações que eu precisava colocá-las em ordem antes de saber mais. Disse isso para ele, com palavras fracas.
- Como quiser, meu mais novo pupilo - respondeu ele. - Vai querer terminar nossa reunião por aqui?
- Não! - respondi, mal ele terminando a frase. Me espantei com minha exclamação e me recompus. - Quero que faça de novo.
O sorriso dele foi discreto e indescritível.
- O sangue, como muitos pensam, não carrega somente o oxigênio de que nossas células necessitam. Ele contém todos os registros da vida da pessoa, todas as imagens, desejos, lembranças, sentimentos, e, se você souber filtrá-lo o suficiente, até mesmo o conhecimento.
- Então, no nosso primeiro encontro, teve acesso à todas essas informações minhas? - perguntei.
- Não. Eu poderia, se quisesse, mas não; eu estava concentrado em algumas coisas, apenas. As coisas necessárias para eu saber se poderia voltar a te encontrar.
- E o que exatamente quer me ensinar?
- A saber obter e aproveitar o sangue, e também a dar seu sangue sem deixar que tirem todo tipo de informação de você. E quero te mostrar como o sangue, o meu sangue, pode te fazer ver as coisas de um modo diferente, ver a verdadeira beleza. Ver a beleza nas coisas que antes sentia repulsa.
Eu ainda estava repleto de perguntas, algumas essenciais, outras aparentemente tolas. Mas não queria fazê-las. Minha mente estava tão cheia de novas informações que eu precisava colocá-las em ordem antes de saber mais. Disse isso para ele, com palavras fracas.
- Como quiser, meu mais novo pupilo - respondeu ele. - Vai querer terminar nossa reunião por aqui?
- Não! - respondi, mal ele terminando a frase. Me espantei com minha exclamação e me recompus. - Quero que faça de novo.
O sorriso dele foi discreto e indescritível.
Quinze. (Dedicado à Larissa)
- Eu já fiquei três anos no Reino Unido, dois no Vaticano, cinco em Portugual, e agora, estou a três meses no Brasil. Você é o primeiro que encontro e que acredito merecer meu conhecimento e Os Segredos do Sangue. - disse Enkil, com um sorriso simpático para mim.
- Como chegou até mim? - perguntei.
- Eu tenho bem determinada as características que espero de meus pupilos. Inteligência, curiosidade; e carência, isso é indispensável. Um jovem sem carência não seria capaz de me amar o suficiente. Cheguei nessa cidade por acaso. Fui até o Rio de Janeiro, depois para São Paulo. Mas eu não ensino em grandes cidades, então, à esmo, vim para cá. Frequentei bibliotecas e livrarias, à procura de alguém interessante de se observar, e cheguei à você. Através de seus vizinhos descuidados, fiquei sabendo que era órfão, inteligente, simpático e bem educado. Também descobri bastante sobre seu tio. Me interessei por você.
- E o que acha que pode me ensinar? - perguntei também, permanecendo com meu tom irônico. Muitas vezes, a ironia nos faz sentir fortes; quanta ilusão!
- Inicialmente, Os Segredos do Sangue, lógico.
- Então conte-os de uma vez.
- Claro, meu jovem.
- Como chegou até mim? - perguntei.
- Eu tenho bem determinada as características que espero de meus pupilos. Inteligência, curiosidade; e carência, isso é indispensável. Um jovem sem carência não seria capaz de me amar o suficiente. Cheguei nessa cidade por acaso. Fui até o Rio de Janeiro, depois para São Paulo. Mas eu não ensino em grandes cidades, então, à esmo, vim para cá. Frequentei bibliotecas e livrarias, à procura de alguém interessante de se observar, e cheguei à você. Através de seus vizinhos descuidados, fiquei sabendo que era órfão, inteligente, simpático e bem educado. Também descobri bastante sobre seu tio. Me interessei por você.
- E o que acha que pode me ensinar? - perguntei também, permanecendo com meu tom irônico. Muitas vezes, a ironia nos faz sentir fortes; quanta ilusão!
- Inicialmente, Os Segredos do Sangue, lógico.
- Então conte-os de uma vez.
- Claro, meu jovem.
Quatorze. (Dedicado à Alana)
- Nunca fomos adotados - continuou Enkil. - Amil foi o primeiro a deixar o orfanato, com a promessa de que, quando saíssemos, nos juntaríamos a ele. E foi isso que aconteceu. Quando Mekare, a mais nova, se juntou à nós, é que realmente começamos a considerar a ideia de fazer o que a mulher nos orfanato nos imcubira.
Ele fez uma pausa, parecia estar colocando os pensamentos em ordem. O olhar estava distante, através da janela.
- Continue - pedi educadamente.
Eu estava fascinado por sua história. Apenas de tudo ser tão irreal, eu sabia que era verdade. Tinha que ser verdade.
Ele voltou a focalizar o olhar em mim.
- Decidimos, por amor à nossa cuidadora, fazer o que ela nos disse. Traçamos um plano. Éramos quatro, e estávamos decididos a espalhar Os Segredos do Sangue por todo o mundo. Fizemos uma lista dos países que cada um visitaria. Deseja vê-la?
- Sim, claro.
Ele saiu por um corredor escuro. Voltou pouco tempo depois, carregando um papel dobrado. Me entregou.
Amil: Afeganistão, África do Sul, Egito, Rússia, Grécia, Índia, Marrocos.
Akasha: Canadá, Estados Unidos, México, Japão, China.
Enkil: Portugual, São Tomé e Príncipe, Brasil, Espanha, Reino Unido, Vaticano.
Mekare: França, Alemanha, Irlanda, Itália, Romênia, Austrália, Noruega, Polônia.
- Como escolheram os países que visitariam?
- Ao contrário do que pode parecer, não ouve muitos projetos. Fizemos uma lista inicial de países que achávamos que mereciam nossa visita. Todos países de influência considerável. O único acrescentado depois foi São Tomé e Príncipe, pois achamos que o Continente Africano estava desfalcado, e o escolhemos por ser de língua portuguesa, dialeto que algum de nós já teria que aprender. A divisão foi feita por puro interesse de cada um pelo país. Alguns, como o Egito e a Romênia foram disputados, por motivos óbvios.
- E então sairam pelo mundo, viajando e bebendo sangue? - perguntei, cheio de sarcasmo.
- É lógico que não. Trabalhamos muito, economizamos muito e tivemos muita força de vontade. Não sei se sabe o que é ter um objetivo real na vida. Todos cooperamos. Estudamos muito, guardamos muito dinheiro. Vivíamos apenas com o indispensável. E compartilhamos da mesma dor: a dor de saber que, se quiséssemos mesmo continuar com aquilo, teríamos que nos separar. Mas assim fizemos.
Ele fez uma pausa, parecia estar colocando os pensamentos em ordem. O olhar estava distante, através da janela.
- Continue - pedi educadamente.
Eu estava fascinado por sua história. Apenas de tudo ser tão irreal, eu sabia que era verdade. Tinha que ser verdade.
Ele voltou a focalizar o olhar em mim.
- Decidimos, por amor à nossa cuidadora, fazer o que ela nos disse. Traçamos um plano. Éramos quatro, e estávamos decididos a espalhar Os Segredos do Sangue por todo o mundo. Fizemos uma lista dos países que cada um visitaria. Deseja vê-la?
- Sim, claro.
Ele saiu por um corredor escuro. Voltou pouco tempo depois, carregando um papel dobrado. Me entregou.
Amil: Afeganistão, África do Sul, Egito, Rússia, Grécia, Índia, Marrocos.
Akasha: Canadá, Estados Unidos, México, Japão, China.
Enkil: Portugual, São Tomé e Príncipe, Brasil, Espanha, Reino Unido, Vaticano.
Mekare: França, Alemanha, Irlanda, Itália, Romênia, Austrália, Noruega, Polônia.
- Como escolheram os países que visitariam?
- Ao contrário do que pode parecer, não ouve muitos projetos. Fizemos uma lista inicial de países que achávamos que mereciam nossa visita. Todos países de influência considerável. O único acrescentado depois foi São Tomé e Príncipe, pois achamos que o Continente Africano estava desfalcado, e o escolhemos por ser de língua portuguesa, dialeto que algum de nós já teria que aprender. A divisão foi feita por puro interesse de cada um pelo país. Alguns, como o Egito e a Romênia foram disputados, por motivos óbvios.
- E então sairam pelo mundo, viajando e bebendo sangue? - perguntei, cheio de sarcasmo.
- É lógico que não. Trabalhamos muito, economizamos muito e tivemos muita força de vontade. Não sei se sabe o que é ter um objetivo real na vida. Todos cooperamos. Estudamos muito, guardamos muito dinheiro. Vivíamos apenas com o indispensável. E compartilhamos da mesma dor: a dor de saber que, se quiséssemos mesmo continuar com aquilo, teríamos que nos separar. Mas assim fizemos.
Treze. (Dedicado à Mayara)
Na hora combinada, Enkil veio me buscar. Me levou até um carro caro, abrindo a porta para mim. Vacilei por um momento. Sabia que estava me arriscando - mas a minha vontade de saber era maior.
Não ouve muita conversa durante o trajeto. Ele me levava para o lado norte, por uma avenida movimentada. Aos poucos, fomos chegando ao subúrbio da cidade.
Ele parou. Estávamos em um bairro de classe média, em frente à uma casa amarela, com portões gradeados. Pela janela que era visível lá de fora, provavelmente a janela da sala, via-se que a luz estava acesa. Será que tinha mais alguém na casa?
- Eu moro sozinho - disse ele, para meu espanto. - Deixo as luzes acesas por segurança.
Meu coração batia descompassado. Por um momento, senti vontade de pedir para ele me levar de volta para casa; mas ele já me dirigia para dentro da casa.
Entramos em uma sala simples. Piso de cerâmica preto, paredes creme. A janela que eu vira do lado de fora. Dois sofás cor de vinho, poucos móveis escuros. Uma televisão, alguns livros. Nada de sobrenatural ou impressionante.
- Sente-se - ele disse, me indicando o sofá maior. Sentei-me, ainda quieto, e ele se sentou ao meu lado.
- O que te faz estar tão calado? - perguntou ele.
- Não vim aqui para falar, vim aqui para ouvir.
Ele sorriu.
- Por onde quer que eu comece?
- Por que me cortou, aquele dia?
Essa não era exatamente a pergunta que se formou em minha mente. Minha intenção era perguntar "Por que eu senti aquilo quando você bebeu meu sangue?" - mas achei que essa pergunta soava idiota.
Ele respirou fundo, antes de começar:
- Bom, se você quer saber o verdadeiro objetivo disso, infelizmente não saberei responder. Talvez seja por prazer. Você sentiu, sabe do que estou falando - e eu realmente sabia. - Mas, como percebeu, é mais que isso.
- Realmente. Mas eu não entendo, o que eu senti quando você...
- Bebi - ele completou.
- É, bebeu... Bem, não foi comum. Como...?
- Já entendi sua pergunta. Me permite começar a explicação à partir de minha história? Ficaria muito mais organizado e de fácil entendimento.
- Como quiser.
- Certo. Como talvez tenha percebido, vim da França. Tenho três irmãos, que estão, no momento, espalhados pelo mundo. Somos, por ordem de nascimento: Amil, Akasha, eu e Mekare. Não sei se somos irmãos biológicos, mas fomos criados como tal. E esses, obviamente, não são nossos nomes.
- Conheço esses nomes. São de uma história de vampiros.
- Exato. Adotamo-os porque decidimos que assim era necessário. Dificulta nossa localização em meios de comunicação. Se alguém procurar por "Enkil bebedor de sangue", encontrará tal personagem. Nome de vampiro, atitude de vampiro. Entende?
- Acho que sim. Prossiga.
- Sabe quem são cada um desses personagens?
- Sim, sei - ele fez menção para que eu continuasse. - Certo. Amil era o espírito sedento de sangue, que invadiu o corpo de Akasha, transformando-a na primeira vampira. Akasha, logo após isso, transformou Enkil em vampiro também. E Mekare é a bruxa ruiva que mata Akasha e, para não matar todos os vampiros do mundo com isso, come seu cérebro, levando para dentro de si o núcleo de Amil.
- Muito bem. Então, como viu, todos são, de certa forma, os primeiros vampiros. Amil, o mais velho, é a fonte de tudo; Akasha, a primeira vampira e mãe de todos os vampiros; Enkil, o primeiro vampiro; Mekare, que por um ato de canibalismo, se tornou a nova mãe de todos os vampiros.
- Voltando à minha história, agora. Fomos criados em um orfanato. Órfãos, como você. Uma das mulheres que lá trabalhava sempre nos deu atenção especial. Quando cada um de nós quatro completamos cinco anos, ela começou a nos dar do próprio sangue, uma vez por semana, na hora do banho. A sensação era exatamente a que você sentirá, em breve. Ela nos dizia que, quando crescessemos, deveríamos sair pelo mundo ensinando às outras pessoas o que ela nos ensinaria. Dizia que éramos Os Primeiros a saber Os Segredos do Sangue. Me lembro pouco dela. Ela deixou de trabalhar no orfanato quando eu tinha oito anos.
- E então pararam de beber sangue? - perguntei. Mas eu sabia a resposta.
- Não. Amil nos dava seu sangue. Ele já tinha quinze anos quando ela se foi, e foi o que mais aprendeu com ela. Ele nos ensinou o que não tivemos oportunidade de aprender com ela. E isso era a única coisa que nos diferenciava das outras crianças.
- Não envolviam as outras crianças nisso?
- Não, de forma alguma. Era algo inteiramente nosso.
Isso me aliviou. Era terrível imaginar o contrário.
Não ouve muita conversa durante o trajeto. Ele me levava para o lado norte, por uma avenida movimentada. Aos poucos, fomos chegando ao subúrbio da cidade.
Ele parou. Estávamos em um bairro de classe média, em frente à uma casa amarela, com portões gradeados. Pela janela que era visível lá de fora, provavelmente a janela da sala, via-se que a luz estava acesa. Será que tinha mais alguém na casa?
- Eu moro sozinho - disse ele, para meu espanto. - Deixo as luzes acesas por segurança.
Meu coração batia descompassado. Por um momento, senti vontade de pedir para ele me levar de volta para casa; mas ele já me dirigia para dentro da casa.
Entramos em uma sala simples. Piso de cerâmica preto, paredes creme. A janela que eu vira do lado de fora. Dois sofás cor de vinho, poucos móveis escuros. Uma televisão, alguns livros. Nada de sobrenatural ou impressionante.
- Sente-se - ele disse, me indicando o sofá maior. Sentei-me, ainda quieto, e ele se sentou ao meu lado.
- O que te faz estar tão calado? - perguntou ele.
- Não vim aqui para falar, vim aqui para ouvir.
Ele sorriu.
- Por onde quer que eu comece?
- Por que me cortou, aquele dia?
Essa não era exatamente a pergunta que se formou em minha mente. Minha intenção era perguntar "Por que eu senti aquilo quando você bebeu meu sangue?" - mas achei que essa pergunta soava idiota.
Ele respirou fundo, antes de começar:
- Bom, se você quer saber o verdadeiro objetivo disso, infelizmente não saberei responder. Talvez seja por prazer. Você sentiu, sabe do que estou falando - e eu realmente sabia. - Mas, como percebeu, é mais que isso.
- Realmente. Mas eu não entendo, o que eu senti quando você...
- Bebi - ele completou.
- É, bebeu... Bem, não foi comum. Como...?
- Já entendi sua pergunta. Me permite começar a explicação à partir de minha história? Ficaria muito mais organizado e de fácil entendimento.
- Como quiser.
- Certo. Como talvez tenha percebido, vim da França. Tenho três irmãos, que estão, no momento, espalhados pelo mundo. Somos, por ordem de nascimento: Amil, Akasha, eu e Mekare. Não sei se somos irmãos biológicos, mas fomos criados como tal. E esses, obviamente, não são nossos nomes.
- Conheço esses nomes. São de uma história de vampiros.
- Exato. Adotamo-os porque decidimos que assim era necessário. Dificulta nossa localização em meios de comunicação. Se alguém procurar por "Enkil bebedor de sangue", encontrará tal personagem. Nome de vampiro, atitude de vampiro. Entende?
- Acho que sim. Prossiga.
- Sabe quem são cada um desses personagens?
- Sim, sei - ele fez menção para que eu continuasse. - Certo. Amil era o espírito sedento de sangue, que invadiu o corpo de Akasha, transformando-a na primeira vampira. Akasha, logo após isso, transformou Enkil em vampiro também. E Mekare é a bruxa ruiva que mata Akasha e, para não matar todos os vampiros do mundo com isso, come seu cérebro, levando para dentro de si o núcleo de Amil.
- Muito bem. Então, como viu, todos são, de certa forma, os primeiros vampiros. Amil, o mais velho, é a fonte de tudo; Akasha, a primeira vampira e mãe de todos os vampiros; Enkil, o primeiro vampiro; Mekare, que por um ato de canibalismo, se tornou a nova mãe de todos os vampiros.
- Voltando à minha história, agora. Fomos criados em um orfanato. Órfãos, como você. Uma das mulheres que lá trabalhava sempre nos deu atenção especial. Quando cada um de nós quatro completamos cinco anos, ela começou a nos dar do próprio sangue, uma vez por semana, na hora do banho. A sensação era exatamente a que você sentirá, em breve. Ela nos dizia que, quando crescessemos, deveríamos sair pelo mundo ensinando às outras pessoas o que ela nos ensinaria. Dizia que éramos Os Primeiros a saber Os Segredos do Sangue. Me lembro pouco dela. Ela deixou de trabalhar no orfanato quando eu tinha oito anos.
- E então pararam de beber sangue? - perguntei. Mas eu sabia a resposta.
- Não. Amil nos dava seu sangue. Ele já tinha quinze anos quando ela se foi, e foi o que mais aprendeu com ela. Ele nos ensinou o que não tivemos oportunidade de aprender com ela. E isso era a única coisa que nos diferenciava das outras crianças.
- Não envolviam as outras crianças nisso?
- Não, de forma alguma. Era algo inteiramente nosso.
Isso me aliviou. Era terrível imaginar o contrário.
Doze. (Dedicado à Thalita)
Não foi nenhuma surpresa para mim quando, dois dias após a primeira visita de Enkil, ele reapareceu. Eu sabia que ele reapareceria. Aline que me avisou de sua chegada, e mandei-a levá-lo ao meu quarto.
- Olá, Rafael, como pediu, dei-lhe seu tempo. Quero minha resposta agora.
Eu já havia pensado, é lógico. Decidi arriscar. Que mal maior eu poderia sofrer? Estava à ponto de explodir de curiosidade, e ansiosíssimo para algo novo.
- Pois bem - respondi. - Aceito sua proposta. Quero aprender com você.
Ele abriu um largo sorriso e me abraçou; eu estava estupefato com tal gesto, porém ao mesmo tempo gratificado. Entenda, Mario nunca foi de demonstrar sentimentos, o que me fez, de certa forma, uma criança carente. Porém não consegui retribuir com tanto entusiasmo.
- Você não sabe como me faz feliz, meu querido - disse ele, após me soltar. - Bom, tenho muito à lhe contar. O que me diz de hoje, às oito horas, em minha casa? Ela não é tão bela ou espaçosa quanto essa, porém nos fornecerá a privacidade de que precisaremos. Então, pode ser?
- Sim, como quiser - respondi, impressionado com seu ânimo.
Então ele partiu, mais feliz que nunca.
- Olá, Rafael, como pediu, dei-lhe seu tempo. Quero minha resposta agora.
Eu já havia pensado, é lógico. Decidi arriscar. Que mal maior eu poderia sofrer? Estava à ponto de explodir de curiosidade, e ansiosíssimo para algo novo.
- Pois bem - respondi. - Aceito sua proposta. Quero aprender com você.
Ele abriu um largo sorriso e me abraçou; eu estava estupefato com tal gesto, porém ao mesmo tempo gratificado. Entenda, Mario nunca foi de demonstrar sentimentos, o que me fez, de certa forma, uma criança carente. Porém não consegui retribuir com tanto entusiasmo.
- Você não sabe como me faz feliz, meu querido - disse ele, após me soltar. - Bom, tenho muito à lhe contar. O que me diz de hoje, às oito horas, em minha casa? Ela não é tão bela ou espaçosa quanto essa, porém nos fornecerá a privacidade de que precisaremos. Então, pode ser?
- Sim, como quiser - respondi, impressionado com seu ânimo.
Então ele partiu, mais feliz que nunca.
Onze.
Aline fora a primeira que reparara mudanças em mim. Dizia-me que eu estava mais quieto e menos presente, que parecia já não me importar em ser o simpático que sempre fora e que dava pouca atenção ao meu tio. Eu respondia à essas acusações com frases curtas, normalmente dizendo-lhe que estava apenas cansado.
No dia anterior à nova visita de Enkil, ela viera ao meu quarto. Esse costume que ela iniciara me impressionava, já que antes ela se recusava a entrar mesmo diante de meu convite.
- Horácio, o que aquele homem estrangeiro queria com você? - me perguntou ela, nessa ocasião.
Eu estava em minha cama, lendo um livro qualquer. Ela entrara sem nem se dar ao trabalho de bater na porta.
- Sabe, Aline, talvez fosse mais apropriado você bater à porta antes de entrar, na próxima vez. Eu poderia estar me trocando - respondi rispidamente.
Ela corou, porém não se deixou abalar. Me olhou com falso desprezo, antes de dizer:
- Bom, nesse caso, não veria nada que me abalasse; você é apenas um garoto!
Levantei os olhos do meu livro para olhá-la. Ela parecia ter se arrependido do que dissera, e não era capaz de suportar meu olhar. Ri com desdém.
- Se sou só esse garoto sem importância que diz, então por que parece se sentir tão atraída por mim? - perguntei, deixando meu livro de lado e me sentando na beirada da cama.
Ela saiu sem nada dizer.
No dia anterior à nova visita de Enkil, ela viera ao meu quarto. Esse costume que ela iniciara me impressionava, já que antes ela se recusava a entrar mesmo diante de meu convite.
- Horácio, o que aquele homem estrangeiro queria com você? - me perguntou ela, nessa ocasião.
Eu estava em minha cama, lendo um livro qualquer. Ela entrara sem nem se dar ao trabalho de bater na porta.
- Sabe, Aline, talvez fosse mais apropriado você bater à porta antes de entrar, na próxima vez. Eu poderia estar me trocando - respondi rispidamente.
Ela corou, porém não se deixou abalar. Me olhou com falso desprezo, antes de dizer:
- Bom, nesse caso, não veria nada que me abalasse; você é apenas um garoto!
Levantei os olhos do meu livro para olhá-la. Ela parecia ter se arrependido do que dissera, e não era capaz de suportar meu olhar. Ri com desdém.
- Se sou só esse garoto sem importância que diz, então por que parece se sentir tão atraída por mim? - perguntei, deixando meu livro de lado e me sentando na beirada da cama.
Ela saiu sem nada dizer.
Dez. (Dedicado à Isabella)
Certo, devem estar se perguntando: "Por que raios não aceitou, se esperou tanto por isso?". Primeiro, por puro e tolo medo. Sim, eu sentia medo; medo de estar me envolvendo com algo sem volta. Segundo, por vaidade; queria ver se aquele homem me considerava realmente importante, se me procuraria de novo.
Ele me deu dois dias para pensar. Que dias terríveis! O tempo em que não estava no colégio (assunto que realmente não merece destaque ou importância), passava tocando composições simples ou deitado em meu quarto.
Ele me deu dois dias para pensar. Que dias terríveis! O tempo em que não estava no colégio (assunto que realmente não merece destaque ou importância), passava tocando composições simples ou deitado em meu quarto.
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